quarta-feira, dezembro 10, 2008

Café da tarde

Eu vendo doces tristes, ela disse, e apontou para a mulher que, num canto do café, dividia a mesa com algo que se indecidia entre um sorvete colegial e um capuccino. Ela levava colheradas mínimas à boca e as depositava na ponta da língua, retardando a sua chegada às papilas anteriores, talhadas para recolher o sabor. Brincava de tortura com o amor delas pela doçura, apenas para aumentar a alegria do cérebro em encontrar o açúcar.

Ela sorriu para baixo, alisando o balcão de vidro como quem alisa um metro de seda pura, engraçando-se da idéia de alguém que, em público, fazia sexo com a sua comida. E interrompeu o sorriso com a nem tão súbita percepção de que essa era uma solidão doída e despida, a mulher que só amava o seu chocolate gelado.

Eu vendo doces tristes, ela disse, assertindo com a frase, internamente. Este é um café aonde as pessoas vêm sozinhas, e tentam parar o tempo, e tentam encontrar o tempo dentro do tempo, o tempo onde o vai-e-volta da rua, das calçadas, tem destino e partida, onde as muitas vozes das muitas muitas pessoas não se mistura com os motores à explosão, os arrotos dos escapamentos, a música gasguita dos carrinhos de CDs falsificados, o olor das valetas e os restos de promessas caducas, formando a poluição que redoma o mundo. Aqui, elas compram vinte minutos do silêncio do mundo. Aqui, eu vendo o ópio da boca. Mas, o sangue renovado desse açúcar, eu lhes devolvo a um mundo ainda mais azedo. Aqui se vem para saber que se é triste.

Ela enxugava as mãos no avental, ocupada do senhor que despejava o conteúdo de dois envelopes num espresso esfumaçante, da moça de tênis de lona e rabo-de-cavalo semidesfeito que evitava morder o envólucro plástico de uma trufa, do homem que avançava sobre um pudim de leite, enquanto lia um jornal de três dias atrás.

Eu vendo doces tristes, ela disse, medindo o abismo de cada um pelo tanto que cabe em suas taças.

4 comentários:

Thais disse...

delta?!
;)

Prospero di Milano disse...

O alfa e o ômega. ;)

Artur R. disse...

Rapaz, texto bom do caralho...

Prospero di Milano disse...

Artur,

brigado mermão.