O demônio familiar criou-se no cesto de roupas sujas, amamentando-se dos cheiros, humores, azedumes e segredos da família, sorvendo as mágoas ao morder as fibras dos tecidos, recebendo com mais e mais agrado a chuva de peças sobre o seu esconderijo. Depois tornou-se grande, espalhado para os corredores, treinando silvos de ventos e assobios delgados. Tornou-se especialista em imitar as vozes dos habitantes. Chamava por um filho com a voz da mãe, ou ensaiava o brado de um irmão, apenas para adivinhar segredos na tensão dos músculos dos pescoços de quem ouvia, medir resistências, pesar farpas cravadas sob a pele, traduzir impaciências. Depois fez-se ventríloquo, plantando palavras nas frases, na verdade recuperando verbos, adjetivos, locuções suprimidas. Usava-os como pequenas setas de zarabatana, pingando de um lento e perene veneno. Desatava a fala da garganta, mentia com um armorial de verdades.
Quantas vezes o exorcizamos, o demônio familiar? Quantas, nos prantos de hospital, num presente sem data, trazido da rua, num afago desnecessário no alto da cabeça, numa mesa farta de pão e cerveja, de vozes e risos soltos, plena de nós todos? Quando encontramos, num canto improvável da casa, como um ovo de páscoa esquecido, a liga que nos escreveu iguais e, por isso, opostos, o amor que dilui as nossas cascas? Mas o demônio volta ao seu berço - seu maior ardil, a espera - e volta a crescer em gotas, quando não mais reconhecemos nossas formas, bebendo a goles de embriaguez, os assassinatos diários da convivência.
terça-feira, outubro 18, 2005
terça-feira, outubro 11, 2005
Avistamento
É o céu vazando uma improbabilidade. Uma estrela girando, vestindo o preto caldo da noite, guiando uma dança com a inércia. É o halo em vermelho, azul e branco, um ponto de luzes espinhosas - um ouriço que fere brilho. E o que diz você, quando ele vem mostrar-se próximo e gigante, prenda vaidosa, um orgulho de braços espraiados que engloba o olho que a vê? E rasa o campo onde, estirado, esperavas o absurdo. E o que diz você quando a estrela que se exibe, cheia de si e seu espanto, escolhe a você e estende-lhe a mão num facho luminoso, convidando-o para o baile?
sexta-feira, setembro 30, 2005
Os moradores 4
A bisavó - mãe do pai de meu pai -, que eu nunca conheci em vida, uma noite irrompeu num sonho lúcido, apresentando-se em palavras escolhidas e de peso medido, jurando proteção e ensinando-me um processo simples que me permitiria voar. E veio tantas outras vezes me acompanhar em meus primeiros vôos, uma visita costumeira, que me tornei seu bisneto póstumo. Era um deslumbramento, como uma casa que a cada dia ganhasse novos cômodos. Era uma uma sensação líquida, escorregar do chão para o ar. A princípio, uma dificuldade imensa de determinar o centro de gravidade, levitando o corpo pelas pernas, ou pela base das costas. Às vezes, raspando o teto, ricocheteando nas paredes, às vezes caminhando no solo, apoiado apenas nas pontas dos dedos das mãos, tomado de uma leveza de piscina. Depois, as mãos guiando o avanço, abrindo o ar como água. Eu, inteiro, um suspiro, alto como uma declaração de amor destinada a ninguém.
E foi ela quem me batizou pela segunda vez, meu batismo verdadeiro, um escudo desenhado em minha testa, minha proteção durante os passeios ao longo de um rio, um pé em cada margem, um abraço portátil. A bisavó também caminhou anos com os pés separados por uma fronteira. Uma noite, ela apropriou-se do revolver que o marido guardava na gaveta da escrivaninha, apagou as luzes do quarto, acendeu uma vela e postou-se em frente ao grande espelho oval. Serena, ela fez mira no plexo solar e disparou contra o reflexo, multiplicando-se pelo chão.
O que a família viu como um ato insano - e posteriormente cômico - foi, na verdade, uma despedida precipitada. Nos anos que e seguiram, até o momento da morte, a bisavó morou num outro mundo, longe desta casa e da outra onde agora habita. Um mundo flutuante em uma água parada, num silêncio de palavras espelhadas. Uma terra que alcançarei voando, seguindo o mapa que ela - foi uma promessa - me dará de presente.
E foi ela quem me batizou pela segunda vez, meu batismo verdadeiro, um escudo desenhado em minha testa, minha proteção durante os passeios ao longo de um rio, um pé em cada margem, um abraço portátil. A bisavó também caminhou anos com os pés separados por uma fronteira. Uma noite, ela apropriou-se do revolver que o marido guardava na gaveta da escrivaninha, apagou as luzes do quarto, acendeu uma vela e postou-se em frente ao grande espelho oval. Serena, ela fez mira no plexo solar e disparou contra o reflexo, multiplicando-se pelo chão.
O que a família viu como um ato insano - e posteriormente cômico - foi, na verdade, uma despedida precipitada. Nos anos que e seguiram, até o momento da morte, a bisavó morou num outro mundo, longe desta casa e da outra onde agora habita. Um mundo flutuante em uma água parada, num silêncio de palavras espelhadas. Uma terra que alcançarei voando, seguindo o mapa que ela - foi uma promessa - me dará de presente.
terça-feira, setembro 20, 2005
Os moradores 3
As duas pequenas irmãs plantam-se no portão. Trazem nas faces comprimidos traços orientais e os talhos a faca de mais de uma centena de anos, cada uma. Mais do que moradoras, são visitantes que aqui estacionam de um périplo inimaginado. Estacam por horas, num silêncio paciente, observando o movimento na rua, até que alguém que deixe ou chegue à casa abra a entrada. Estalam um curto bom dia, tarde ou noite - que não se ouve - e perdem-se no jardim, em direção ao interior.
Gêmeas idênticas, diferenciam-se pela indumentária. Uma, aquela que nasceu primeiro, usa uma touca que lhe esconde todo o cabelo, um vestido laranja - sempre laranja - com detalhes de pequenas flores brancas, que se propõem jasmins, e carrega consigo uma sacola que contém um grito. A mais nova tem os cabelos acinzentados soltos sobre os ombros, cobre o corpo sem cintura com um vestido branco, coberto por pequenos hexágonos formados por quase imperceptíveis traços inteiros ou divididos por um espaço vazio, e apóia-se num cajado que na verdade é uma cobra hipnotizada.
Usam a casa como estalagem a saltos regulares de dias. Andam sempre emparelhadas, muito próximas, nunca tocando uma a outra ou avançando nem retardando a marcha. Arrastam as sandálias de dedo sobre os círculos invisíveis do tempo, escondendo nos pequenos olhos o horizonte que fitam. Prende-lhes à caminhada uma corda extensível, um fio vermelho que vaza dos ventres e dos peitos. A dor persistente, presente de filhos e maridos mortos. O langor seco de não ter mais a quem servir.
Gêmeas idênticas, diferenciam-se pela indumentária. Uma, aquela que nasceu primeiro, usa uma touca que lhe esconde todo o cabelo, um vestido laranja - sempre laranja - com detalhes de pequenas flores brancas, que se propõem jasmins, e carrega consigo uma sacola que contém um grito. A mais nova tem os cabelos acinzentados soltos sobre os ombros, cobre o corpo sem cintura com um vestido branco, coberto por pequenos hexágonos formados por quase imperceptíveis traços inteiros ou divididos por um espaço vazio, e apóia-se num cajado que na verdade é uma cobra hipnotizada.
Usam a casa como estalagem a saltos regulares de dias. Andam sempre emparelhadas, muito próximas, nunca tocando uma a outra ou avançando nem retardando a marcha. Arrastam as sandálias de dedo sobre os círculos invisíveis do tempo, escondendo nos pequenos olhos o horizonte que fitam. Prende-lhes à caminhada uma corda extensível, um fio vermelho que vaza dos ventres e dos peitos. A dor persistente, presente de filhos e maridos mortos. O langor seco de não ter mais a quem servir.
quinta-feira, setembro 15, 2005
Os moradores 2
Não é um homem. É uma fotografia não pendurada nas paredes dos corredores. É um acontecimento, um cenário que não se contentou em ficar para trás na margem do tempo e empenhou o nado no rastro do barco que nos leva, desatentos. Apenas os olhos oblíquos sobre a água. É um eco calado ribombando nos limites do teto. Acompanha os nossos dias, sem que percebamos, como uma fita gomada presa aos dedos. É a paisagem que observa, um instante perene cravado no centro da sala.
quinta-feira, setembro 08, 2005
Os moradores 1
De todos os habitantes que dormem nas quinas desta casa, um me interessa em especial. Um que entende o meu silêncio ao travesseiro, que aprova a minha tola mania de sempre procurar o alento das janelas, como se esperasse algo entrar por elas, atravessando o selo de seus vidros. Nelas ele às vezes se projeta para se despedir de mim, na partida diária. Uma sombra de menino que percorre estes corredores, projetada nos quartos sem luz, alimentando-se da poeira debaixo das camas, progredindo pelas paredes, equilibrando-se aos pulos sobre o muro de meu jardim, num malabarismo noturno e solitário.
Talvez tenha sempre sido um morador daqui, precedido a minha chegada, a do meu pai, dos tijolos, ferro e esperanças que ergueram essas paredes. Talvez tenha habitado este espaço antes de qualquer outro aqui chegar. Talvez seja uma alegria tão antiga e tão represada, um sorriso escondido sob o lábio dos anos, uma dança antes que viesse a música. Talvez uma presença nômade, que tenha vencido os portões e grades, por encontrar aqui a figura camuflada de um igual, alguém com quem talvez possa brincar, na noite dos postes alaranjados, nós dois equilibristas dos muros.
Uma noite, desperto na madrugada, passou por mim na cegueira de um corredor apagado. Pude discernir sua forma na matéria densa do escuro, pude sentir a sombra do vento que sua passagem produziu, pude ouvir o amortecer dos seus passos. O resíduo de uma criança que nunca existiu, a esperança antropomorfa de uma brincadeira. Na invisibilidade, estiquei o braço e lhe ofereci a mão, num convite. Por quantos centímetros seus dedos esquivaram-se dos meus?
Talvez tenha sempre sido um morador daqui, precedido a minha chegada, a do meu pai, dos tijolos, ferro e esperanças que ergueram essas paredes. Talvez tenha habitado este espaço antes de qualquer outro aqui chegar. Talvez seja uma alegria tão antiga e tão represada, um sorriso escondido sob o lábio dos anos, uma dança antes que viesse a música. Talvez uma presença nômade, que tenha vencido os portões e grades, por encontrar aqui a figura camuflada de um igual, alguém com quem talvez possa brincar, na noite dos postes alaranjados, nós dois equilibristas dos muros.
Uma noite, desperto na madrugada, passou por mim na cegueira de um corredor apagado. Pude discernir sua forma na matéria densa do escuro, pude sentir a sombra do vento que sua passagem produziu, pude ouvir o amortecer dos seus passos. O resíduo de uma criança que nunca existiu, a esperança antropomorfa de uma brincadeira. Na invisibilidade, estiquei o braço e lhe ofereci a mão, num convite. Por quantos centímetros seus dedos esquivaram-se dos meus?
terça-feira, agosto 30, 2005
Fronha da minha quietude
Eu dou-lhe a mão espalmada para conter a sua e é um caminho de volta que elas percorrem no ar. Os seus dedos sobre a minha vista e eu não sou mais o medo da visita fora do olho mágico, o homem que viu outro cair pela janela, o contrapé do mundo rodado. Eu sou um peito cheio do peso da sua cabeça, uma pálpebra em que se imprime um lábio, uma folha que roda no grito do dia, a janela que carrega em si o mundo inteiro. Eu sou o ar desenhando a música, o riso escapado, soluçado, do homem taciturno, um riso que escavou anos entre argila e rochas e areia até mostrar-se ao sol, um sachê de cheiro iluminando o guarda-roupa. E no espaço oco entre o meu espanto e a minha explosão, você redesenha as linhas da minha mão, e escolhe por mim a direção no caminho bifurcado.
domingo, agosto 21, 2005
Borrow somebody's dreams 'till tomorrow 6
Com aquele semblante de quem tudo sabe, inclusive tudo o que lhe foge do conhecimento, ele disse. "No princípio, deus não conseguiu criar nada, nem mesmo um grão de areia, nem mesmo a idéia de um grão de areia. Lançava as mãos, os dedos em garras à frente, mas nada nascia do seu gesto. Foi depois de uma eternidade - e para deus todo segundo é uma eternidade - que ele entendeu. Deus, então arquiteto de um barro inexistente, criou a palavra e com ela ergueu sua obra. Tudo o que pensava era o nome, bastava-lhe gritar a denominação e a coisa surgia por conta própria, o universo escapando-se dos próprios bolsos. Imagine, então, a ledice de uma outra eternidade, um deus sorridente, divertindo-se de criar e gritar nomes, espantando-se da concretude de sua própria criação."
"E pense, ainda, na solidão da primeira letra - a eternidade dentro do segundo, lembra? - que, por um tempo imensurável, a nada podia conceder nome ou corpo. Ela mesma um deus solitário, com um alarido interno, que era um universo à procura de uma forma."
"E pense, ainda, na solidão da primeira letra - a eternidade dentro do segundo, lembra? - que, por um tempo imensurável, a nada podia conceder nome ou corpo. Ela mesma um deus solitário, com um alarido interno, que era um universo à procura de uma forma."
domingo, agosto 14, 2005
O quarto escuro do amor dormido
O assassino entra no quarto guardando todos os ruídos nos bolsos, conservando o sono da mulher deitada. À beira da cama, ele estaca e a observa por uns instantes, tentando adivinhar-lhe os sonhos. Mas ela os guarda sob o travesseiro e ele se ressente do seu silêncio. De semblante cerrado, ele curva-se sobre a silhueta guardada sob o lençol. E faz o que veio fazer. / Ou era um quarto que não veria a manhã seguinte. Quadros, luminárias, cômoda, cortinas de olhos fechados, o teto que guardou um grito. Era um quarto com a mão sobre a boca quando o homem ergueu a mão sobre a cabeça, faca em preparo, e imaginou interromper um sonho sobre crianças e aviões. / Ou os olhos dele já eram amigos do escuro quando entrou no quarto, que já conhecia. Lembrou-se do cheiro da mulher deitada antes de senti-lo. Observou o rosto, única parte do corpo à mostra, mesmo que parcialmente. Um quarto cheio de um frio nervoso. Pensou em beijá-la, mas não queira que acordasse. Assim, em silêncio, fez uma oração que desviou-se numa declaração de amor mudo. Tentou encontrar-se dentro daquelas pálpebras que mal enxergava. Ao certificar-se de sua ausência, buscou a faca guardada em seu casaco. A lâmina virgem, perfeita, guardada para um ato de bênção. Levantou-a e, depois de uma hesitação imperceptível testou a insuficiente resistência da carne do peito do seu amor. / Ou o pretume dentro do quarto não lhe deixa perceber meus olhos minimamente abertos. Mas eu consigo vê-lo e completo com a lembrança os traços que o escuro apaga do seu rosto. Internamente, eu zombo do seu passo revestido de um cuidado caricatural. Envaideço-me com a sua contemplação, e lhe dedico uma ternura que não sentia há tempos. O seu silêncio me explica o que irá fazer, mas eu não movo nenhum músculo. Estou decidida a ver tudo, a acompanhá-lo até o fim, a receber sua raiva como um carinho. Mas, quando o metal em sua mão deixa refletir um brilho tímido, me escondo atrás das pálpebras e prendo nos pulmões o ar que me sairá pelo peito. / Ou ela é o rumor de uma corrente que me corre dentro, uma agonia latejada, o resíduo amargo da comida que me mantém vivo. Ela é o gatiho e o empecilho da minha lágrima. Ela é o óleo que me escorre da testa, a planta escondida no ovo da morte, a mordida de um câncer. Mata-me ser tão pleno dela e não habitar-lhe nem como uma imagem gasta na calha da memória. Ela é a causa da minha morte. Eu serei a dela. / Ou cinco beijos de metal no lado de dentro do seu coração, sendo o último permanente. Faca, tecido e carne unidos. Quem lhes discerniria um do outro?
quinta-feira, agosto 11, 2005
Chapéu no peito
Termina com um grito engolido no seu primeiro pulo, um soluço ácido. Termina com as nuvens fechando-se, transformando palco em cochia, a luz ardendo os olhos sentados, espantando a audiência. Termina com um menear de cabeça, o chapéu no peito, a solenidade patética do destino abortado. O futuro que errou o caminho dói como um canteiro careca de flores. Em algum lugar fora dele nós nos alcançamos, fora desse tempo que era meu e que se perdeu, o caminho não construiu um beco, os muros - altos como a azia de uma palavra não dita - não se fecharam sobre mim. Naquele outro lugar eu não presto visitas diárias a um túmulo, sobre o qual eu planto os meus segredos. As flores mais lindas da minha criação brilhando no silêncio.
terça-feira, agosto 09, 2005
Há um dia numa noite
Eu nem sempre fui de noite, nem sempre cobri o sol com as mãos e segui os desenhos das calçadas. Foi o meu presente o nervo mastigado, o mal entranhado, borbulhando o sangue, o verde sob a terra. Em algum ponto, eu passei a dormir do lado de fora, sob a minha janela, espreitando a fala das lâmpadas, dando de ninar à cidade. Um dia, talvez na sombra de uma falésia ou na morte de um rio, eu branqueei os cabelos da minha infância e afoguei um menino. Mas, há um sonho no qual eu me dispo dos anos, em que eu abro as mãos generosas da minha vista e recebo a luz, como um fantasma de sol num dia de roupas largas. Nele você dança sem gestos e pousa sobre mim, como já fez um dia, a pluma dos seus olhos, fronha da minha quietude.
domingo, agosto 07, 2005
Borrow somebody´s dreams ´till tomorrow 5 ou A Bailarina do Veneza
Folhas secas entram revoando em redemoinhos pela esquecida janela aberta. Sobre a escrivaninha, alguns poemas escritos à mão escorregam para o piso, impelidos pelo vento de agosto. Setembro nem começou e já é interminável. Lá fora, as árvores dançam e, se alguém passasse na rua nesse instante, perguntaria se não são elas que agitam o ar que agora beija o rosto do jovem de olhos fechados, deitado em sua cama. Aproximamo-nos dele. Olhamos por seus olhos que vêem o que não podemos chamar certamente de sonho.
Haniel vem por uma rua do centro. Mãos dadas a uma moça de amarelos e negros cabelos e olhos, seria chamada Circe. Olha-a e quase mesmo acredita que ela está ali. Como se não tivesse ido embora, em um dia que a lembrança insiste em esconder. Talvez até ela não tenha sido tão bonita como agora lhe parece.
Na verdade, ele sabe, ela era ainda mais bela. O andar tem fim. Chegam à frente do Cine Veneza. Circe corre à bilheteria. Haniel pensa a tarde e como parece com outra, de muito tempo atrás. De novo, a apagada lembrança. “Balas?” Soa uma voz em suas costas. Gira no pé direito e vê a bailarina, rosto maquiado branco, com ressaltados traços a lápis preto. Roupa colante num corpo esguio. Na altura da cintura, um tabuleiro de guloseimas, pendurado à nuca por uma correia. “Quer balas?”
“Haniel!” Circe chama, acenante, da entrada, agitando na mão os bilhetes. As pessoas entram devagar, parecem estranhas, como se já as tivesse visto. Ah... memória... Como se as visse por toda a vida. A voz aveludada da bailarina parece espalhar-se no ar. “Ela não é real, você sabe. Eu sou, de uma forma diferente, mas sou, agora mesmo a lembrança tremeluz em você.” ele olha de novo a menina loira. Como foi mesmo? Há tanto tempo...
Lembra que a namorou por quase um ano, depois de outro de devota admiração. Tudo em sua vida passava por ela, como um filtro, o fundo de uma piscina. Lembra que gostava de encostar em seu pescoço e ali ficar, por muito tempo sentindo o cheiro de flor que transpirava. Circe, um dia, disse acabado tudo. Que não era ele quem ela queria, que não se vissem mais. Ele insistiu, pelejou, mas estava decidida, concreta e não a abalou nem mesmo quando caiu menino aos seus pés. Cerrada em sua decisão, de onde quem sabe originada, ela irredutiu-se. Enfim, como que conformado disse “Vou me lembrar para sempre de você” Ao que a moça respondeu, dando-lhe as costas para nunca mais: “Eu espero que não”.
“Balas?”
Olha para baixo, não, não quer. Na porta da sala de projeção, a menina loira sumiu. “Ora, mas se você não quer, o que veio fazer no cinema? Assistir a um filme? Você já viu todos.” Onde ela está , quer saber. “Ela não existe, já falei. Ficou para trás como as outras pessoas. É uma outra lembrança que já de novo perde-se aí dentro. Vamos, aqui a mão.” O rapaz enxuga a vista e estica o braço. Um arrepio lhe relampeja o corpo quando sente os dedos frios e magros tocarem os seus. “Calma, agora podemos ir, está pronto?” Ele não sabe se está, mas faz que sim com a cabeça. Ela sorri docemente, e passa-lhe a outra mão nos cabelos lisos. E assim, Haniel desce a calçada com a bailarina do Veneza que vende balas de verdade.
Chuviscos entram pela janela, molhando o chão. O tempo parece que vai piorar, talvez chova muito nos próximos dias. Uma folha marrom entra rodopiando pelo quarto e interrompe sua trajetória pousando no peito do rapaz deitado. Sua mão solta de lado da cama toca o piso, dela escorre um líquido denso e vermelho formando uma poça, que vai aumentando de tamanho, prejudicando, de maneira irreversível, o caríssimo carpete bege.
Haniel vem por uma rua do centro. Mãos dadas a uma moça de amarelos e negros cabelos e olhos, seria chamada Circe. Olha-a e quase mesmo acredita que ela está ali. Como se não tivesse ido embora, em um dia que a lembrança insiste em esconder. Talvez até ela não tenha sido tão bonita como agora lhe parece.
Na verdade, ele sabe, ela era ainda mais bela. O andar tem fim. Chegam à frente do Cine Veneza. Circe corre à bilheteria. Haniel pensa a tarde e como parece com outra, de muito tempo atrás. De novo, a apagada lembrança. “Balas?” Soa uma voz em suas costas. Gira no pé direito e vê a bailarina, rosto maquiado branco, com ressaltados traços a lápis preto. Roupa colante num corpo esguio. Na altura da cintura, um tabuleiro de guloseimas, pendurado à nuca por uma correia. “Quer balas?”
“Haniel!” Circe chama, acenante, da entrada, agitando na mão os bilhetes. As pessoas entram devagar, parecem estranhas, como se já as tivesse visto. Ah... memória... Como se as visse por toda a vida. A voz aveludada da bailarina parece espalhar-se no ar. “Ela não é real, você sabe. Eu sou, de uma forma diferente, mas sou, agora mesmo a lembrança tremeluz em você.” ele olha de novo a menina loira. Como foi mesmo? Há tanto tempo...
Lembra que a namorou por quase um ano, depois de outro de devota admiração. Tudo em sua vida passava por ela, como um filtro, o fundo de uma piscina. Lembra que gostava de encostar em seu pescoço e ali ficar, por muito tempo sentindo o cheiro de flor que transpirava. Circe, um dia, disse acabado tudo. Que não era ele quem ela queria, que não se vissem mais. Ele insistiu, pelejou, mas estava decidida, concreta e não a abalou nem mesmo quando caiu menino aos seus pés. Cerrada em sua decisão, de onde quem sabe originada, ela irredutiu-se. Enfim, como que conformado disse “Vou me lembrar para sempre de você” Ao que a moça respondeu, dando-lhe as costas para nunca mais: “Eu espero que não”.
“Balas?”
Olha para baixo, não, não quer. Na porta da sala de projeção, a menina loira sumiu. “Ora, mas se você não quer, o que veio fazer no cinema? Assistir a um filme? Você já viu todos.” Onde ela está , quer saber. “Ela não existe, já falei. Ficou para trás como as outras pessoas. É uma outra lembrança que já de novo perde-se aí dentro. Vamos, aqui a mão.” O rapaz enxuga a vista e estica o braço. Um arrepio lhe relampeja o corpo quando sente os dedos frios e magros tocarem os seus. “Calma, agora podemos ir, está pronto?” Ele não sabe se está, mas faz que sim com a cabeça. Ela sorri docemente, e passa-lhe a outra mão nos cabelos lisos. E assim, Haniel desce a calçada com a bailarina do Veneza que vende balas de verdade.
Chuviscos entram pela janela, molhando o chão. O tempo parece que vai piorar, talvez chova muito nos próximos dias. Uma folha marrom entra rodopiando pelo quarto e interrompe sua trajetória pousando no peito do rapaz deitado. Sua mão solta de lado da cama toca o piso, dela escorre um líquido denso e vermelho formando uma poça, que vai aumentando de tamanho, prejudicando, de maneira irreversível, o caríssimo carpete bege.
sexta-feira, julho 29, 2005
A mão sobre a boca
O meu silêncio é a mancha que turva a água, é a arma deposta aos pés, à guisa de semente. Meu silêncio é uma tosse engolida, é a tampa da garganta, é o desviado dos passos na boca do beco escuro. Meu silêncio é o de um analfabeto perante o muro alto de uma palavra, confundindo-se sombra, esquecendo-se gente. É um osso exposto, saltado da carne como um animal subterrâneo rompe o lacre da terra. Meu silêncio se alardeia, estandarte de lágrima, arde na vista como o vermelho no preto. Ao esconder-se, propaga-se, propõe adivinhações, levanta sombrancelhas e prega olhares. Meu silêncio é um farol, a dor que afugenta os barcos.
terça-feira, julho 26, 2005
Inveja de todos
Ficaram meus dedos tateando o ar, a memória como sangue embaixo das unhas. Eu sou o homem que matou a criança. Um bebê lindo, saudável, inveja de todos e destinado, desde que dado à luz, à morte prematura por um mal inato. Mas a misericórdia não é alívio. Eu sou o homem que fez da beleza ruína, eu que fechei a janela ainda no sono das tardes. Eu que levo a noite nos bolsos como bolas de gude, para espalhá-las nas ruas, derrubando os cavalos. Eu que escarneço do amor a deus, por duvidar da sua reciprocidade, por não saber se minha existência lhe toca, ou concerne. Eu que sempre imaginei os anjos nunca estive entre eles. Eu, prodigioso criador de fantasmas, acrescento mais esse aos que fazem fila na porta da minha casa destruída.
segunda-feira, julho 18, 2005
Entre o pulmão e a boca
Num quarto selado de escuro, o homem abraçado às pernas dobradas renova o grito, mas a voz lhe sumiu há anos. Quem vai escalar as palavras mais imponentes e fincar-lhes bandeiras aos cumes? Quem vai atravessar o tempo em saltos sobre as pedras em movimento? Quem vai confidenciar à mulher, que de colchão tornou-se clava, as lascas em espiral que sobraram da verdade talhada, o labirinto da noite entre os mortos? Quem, abraçado aos anos num quarto fechado, encontrará novamente a ponte do som e se fazer escutado? Ninguém. Pois o escuro tem o peso de uma frase em punhal e afoga, como a água plenificando o caminho entre a boca e o pulmão. À porta ninguém veio, nem virá. O quarto é um caminho que não saiu do lugar, é o tiro de largada que não explodiu. O homem - os olhos abertos? - sonha consigo. No sonho, é uma criança de olhos fechados, acariciando a fronte de uma fera em posição de ataque. Morde o lábio até o sangue, sem conseguir alertar a si mesmo sobre o perigo.
quarta-feira, julho 13, 2005
De onde se via a outra margem
Havia um muro - não de se pegar, mas havia - que não cortava o vento nem a vista, mas parava as mãos, entortava os caminhos, guilhotinava as palavras. E cresceu para lago, onde os pés testavam covardes a mordida do frio e cancelavam a travessia. E nem aves nem insetos vinham beber no espelho, nem o sol lavava a multidão das pequenas ondas. E as mãos confirmavam a aspereza da areia da margem, e espalhavam os grãos, semeando chão em si mesmo. E os olhos traíam o corpo e, no menor dos descuidos, já estavam além da água, brincando na paisagem impossível. E cresceu para horizonte, que é um muro entre duas miragens. E a imaginação, esse monstro de mil bocas, abandonava os olhos e o corpo, lançando-se além da linha da vista, retornando relatórios que enchiam de garras e sombras a obesidade pronunciada de um vão intransponível.
terça-feira, julho 12, 2005
Dentro e fora
Eu acordava no sonho com o barulho angustiado de um morcego, ou um pássaro da noite, debatendo-se contra a janela fechada do meu quarto. Asas e garras reclamando o vidro, chorando o frio da noite lá fora, um vulto agitado, multiplicado pelo movimento, mal delimitado pela fraca luz externa. Eu levantava, o passo frouxo, até o interruptor pretendendo empurrar com a claridade o animal de volta a seu lar feito de madrugada. Mas a lâmpada acesa desenhou, através do vidro, o rosto e as palmas das mãos de uma criança morta.
Eu acordo com um trem atravessando as minhas veias e a boca num travo. Hesito em iluminar o quarto, mas, quando o faço, a janela vazia convence-me do sonho. Pensando em matar a sede, abro a porta a tempo de ver o velho no final do corredor. Ele volta a cabeça para mim e me convoca, com o dedo indicador, entrando no último quarto. Eu recuso-me a segui-lo e, em vão, tento acordar da vigília.
Eu acordo com um trem atravessando as minhas veias e a boca num travo. Hesito em iluminar o quarto, mas, quando o faço, a janela vazia convence-me do sonho. Pensando em matar a sede, abro a porta a tempo de ver o velho no final do corredor. Ele volta a cabeça para mim e me convoca, com o dedo indicador, entrando no último quarto. Eu recuso-me a segui-lo e, em vão, tento acordar da vigília.
terça-feira, julho 05, 2005
Borrow somebody's dreams 'till tomorrow 4
Eram oito pessoas na pequena casa onde o corpo dele esperava a hora de virar chão. Três mulheres choradeiras, a viúva assombreada pelo véu preto e quatro filhos incriados. Quatro velas grossas em volta do caixão enchiam o ar do cheiro lamuriento da cera derretida, porque as flores colhidas na manhã recém-parida já haviam fechado os seus frascos. A cidadezinha fazia fila para honrar o novo morto, que perecera com uma semente de chumbo plantada no coração, sem que se soubesse quem fora o lavrador. Os condolentes seguiam pela lateral da casa e, da janela, lançavam suas bênçãos e pesares, partindo em seguida para seus próprios restos de vida.
O protocolo fúnebre foi quebrado pela Velha, que adentrou o recinto reservado à família e às carpideiras. Ela tinha a fama de se mover no plano de dentro das coisas, moldá-las por suas hastes não vistas, e o presente, que não se sabia de deus ou do diabo, afastava e encantava os vizinhos, o receio recomendando a prudência e a distância. Assim, imperturbada, ela avançou até o morto. E ninguém viu retesarem-se as cordas invisíveis que enchiam a sala, quando ela debruçou-se sobre o rosto do homem vazio, soprando segredos no seu ouvido, depositou-lhe uma moeda sobre o selo dos lábios e, no pé direito, introduziu um alfinete na carne que não mais sangrava. E ninguém desfez-lhe o artifício depois que ela voltou para o seu isolamento.
Foi tarde da noite do segundo dia que surgiu o assassino. Os olhos vermelhos e aumentados, a boca aberta, as roupas imundas. Atravessou a cidade, sobressaltado e espantado das sombras imóveis das casas, e jogou-se dentro da cadeia, despejando em palavras tudo o que tinha por dentro. Disse que matara o homem à traição, desarmado e encurralado, por uma briga de terra a mais ou terra a menos, que lançara-se no mundo para fugir à pena e que já avançara um trecho seguro quando a noite trouxe as sombras. E com elas, as vozes de homens vigilantes, passos de encalço cercando-o entre o matagal. E por uma madrugada inteira os perseguidores o acompanharam de perto, invisíveis mesmo em campo aberto sob a lua cheia. Nem o dia trouxe a paz, nem calou as falas confundidas, nem interrompeu os passos, nem mostrou-lhes os rostos. Não chegavam, apenas o seguiam e arrodeavam. Acuado pelo que não via e exausto pelo peso carregado, o matador decidiu ser protegido pela verdade, seguido de perto também no seu caminho de volta e confissão.
E foi na madrugada calada, com o assassino dormindo em paz em sua cela, que os insones nas janelas puderam ouvir os passos pesados e sem donos de vinte ou trinta homens, numa lenta marcha de retorno.
O protocolo fúnebre foi quebrado pela Velha, que adentrou o recinto reservado à família e às carpideiras. Ela tinha a fama de se mover no plano de dentro das coisas, moldá-las por suas hastes não vistas, e o presente, que não se sabia de deus ou do diabo, afastava e encantava os vizinhos, o receio recomendando a prudência e a distância. Assim, imperturbada, ela avançou até o morto. E ninguém viu retesarem-se as cordas invisíveis que enchiam a sala, quando ela debruçou-se sobre o rosto do homem vazio, soprando segredos no seu ouvido, depositou-lhe uma moeda sobre o selo dos lábios e, no pé direito, introduziu um alfinete na carne que não mais sangrava. E ninguém desfez-lhe o artifício depois que ela voltou para o seu isolamento.
Foi tarde da noite do segundo dia que surgiu o assassino. Os olhos vermelhos e aumentados, a boca aberta, as roupas imundas. Atravessou a cidade, sobressaltado e espantado das sombras imóveis das casas, e jogou-se dentro da cadeia, despejando em palavras tudo o que tinha por dentro. Disse que matara o homem à traição, desarmado e encurralado, por uma briga de terra a mais ou terra a menos, que lançara-se no mundo para fugir à pena e que já avançara um trecho seguro quando a noite trouxe as sombras. E com elas, as vozes de homens vigilantes, passos de encalço cercando-o entre o matagal. E por uma madrugada inteira os perseguidores o acompanharam de perto, invisíveis mesmo em campo aberto sob a lua cheia. Nem o dia trouxe a paz, nem calou as falas confundidas, nem interrompeu os passos, nem mostrou-lhes os rostos. Não chegavam, apenas o seguiam e arrodeavam. Acuado pelo que não via e exausto pelo peso carregado, o matador decidiu ser protegido pela verdade, seguido de perto também no seu caminho de volta e confissão.
E foi na madrugada calada, com o assassino dormindo em paz em sua cela, que os insones nas janelas puderam ouvir os passos pesados e sem donos de vinte ou trinta homens, numa lenta marcha de retorno.
domingo, julho 03, 2005
Bem junto com a rua o mundo acabava
Eu, na janela, ouvindo a conversa do vento e desfiando a vista. Era um bairro suspirando por sua própria invenção. E foi o prédio concretado do costume que me fez querer você à mão, ter novamente com quem dividir os meus olhos improváveis. Dizer veja, numa poça d’água, um raio de luz tornar-se uma dançarina a girar sobre os pés, desfazendo-se do próprio peso, veja um coqueiro fazer reverências ao vento, as nuvens acelerarem o passo da tarde, um gato equilibrar-se entre a guerra de dois quintais, veja um horizonte contar a história do campo que esconde, o plano de deus terminar em ponto e vírgula e o mundo ignorante de seu próprio fim. Uma tarde que se perdeu em mim, e eu perdido nela, por ser o único confidente do seu caminho coberto. Para quem mais eu mostraria os pássaros voando em ritmo de valsa: duas ascenções e uma queda? A quem eu sugeriria música de suas asas?
terça-feira, junho 28, 2005
A rede do trapezista
Os olhos de meu pai eram pistas de adivinhação. Eram como o mar que se incha do escuro do céu antes da chuva. De verdes, tornavam-se azuis na euforia e fechavam-se num cinza inconfidente quando a vida lhe comia por dentro. Eram a sua concessão máxima para falar-nos dos lagos que lhe transbordavam. Um dia, o vento que não soprava da sua boca e o rio que lhe corria subterrâneo explodiram-lhe o coração e o estômago. Meu pai pequeno, diante do mundo e sua bocarra, secou para dentro, engolindo lembranças, formigas carnívoras urdindo cavernas nas suas entranhas. Já era do outro mundo antes mesmo de deixar este. Já estava no outro lado, antes de pisar a estrada.
Um sonho bom é sonhar-lhe os olhos azuis, o sorriso que era a rede sob o meu trapézio, o vento assanhando-lhe os cabelos que não herdei. Herdei, sim, os seus lagos e suas ventanias e com eles enfeito a paisagem do nosso reencontro. No dia em que sua vista refletirá novamente uma redoma sem nuvens. Meu pai gigante como eu me lembro, as mãos novamente a me levantarem do chão. Nós dois sonhados por um terceiro, vivos pela mesma saudade.
Um sonho bom é sonhar-lhe os olhos azuis, o sorriso que era a rede sob o meu trapézio, o vento assanhando-lhe os cabelos que não herdei. Herdei, sim, os seus lagos e suas ventanias e com eles enfeito a paisagem do nosso reencontro. No dia em que sua vista refletirá novamente uma redoma sem nuvens. Meu pai gigante como eu me lembro, as mãos novamente a me levantarem do chão. Nós dois sonhados por um terceiro, vivos pela mesma saudade.
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